domingo, 20 de março de 2022

pátria minha

 


Pátria Minha

Vinícius de Moraes

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...



Pessoal intransferível, Torquato Neto.

“Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada nos bolsos e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.

Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, herdeiro da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.

E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi.

Adeusão (14/09/ 1971 – 3a feira).”

Tudo do Torquato Neto, achado em Os últimos dias de Paupéria ou em Torquatália.



 

A FLAUTA-VÉRTEBRA


A todas vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e
celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

Vladimir Maiakóvski



Há homens que lutam um dia

e são bons,
Há outros que lutam um ano
e são melhores,
Há os que lutam muitos anos
e são muito bons,
Mas há os que lutam toda vida
e estes são os imprescindíveis

Bertold Brecht

poesia



 Dê Líricas

 

Bebo teus olhos atlânticos

e tua voz portuguesa

como quem bebe no Tejo

saudades de Lisboa

 

caminho com os teus passos

em direção ao poema do desassossego

Florbela Espanca Alberto Caieiro Fernando Pessoa



Baudeléricas Bordelíricas 

 

o poema um beijo em tua boca bruna tem um B entranhado entre as coxas a pele das amoras gemem quando venta forte em tuas fendas do hoje comi duas nessa manhã incendiária quando vim da cacomanga trouxe nos bolsos da calça remendada linha carretel cola de trigo cerol bambu papel de pipa pique bandeira pique esconde jabuti preá da índia pés de abóboras replantáveis o pé de abacate ainda não nasceu Isadora chegou ontem 30 de março numa tarde outono à sol aberto noite gelada frio na medula maya ainda escreve sobre depressão no tempo folks may abriu as asas pra malásia e a outra mora do outro lado em outra terra rio grande muito longe tenho sede


 

com os dentes cravados na memória 


tontas  vezes me re-par-to mul-ti-pli-co em 7 alegria dos noves fora nada tudo é baudelérico federico me dizia leonardo fez 80 afonso 84 na rede somos 3 quando ele vem já somos 4 em temporais escrevo e sangro como boi antes da morte muitos outros já se foram e nem gozaram em 69 se eu me lembrar 64 não posso esquecer 68 era uma noite de maio peguei o trem pra são cristóvão depois avião para brasília quando voltei no espelho dédala já estava dentro da tipografia


Ofício de Poeta

 

franzir a noite

é o mesmo que bordar o dia

costuro o tempo

com linha de pescar moinhos de vento

entre o franzido e o bordado

escrevo um desenredo

e vou foto.grafando

filmando poesia

na solidão dos meus brinquedos

 

II

 

costuro arco-íris

com linhas de bordar

teus olhos d´água

 

III

 

pego na enxada diariamente

para capinar o quintal

da estação três cinco três

 

literalmente

 

não é metáfora

para lamber cio da terra

como na canção que Chico fez

 

 IV

 

a poesia as vezes me vem da fala

outras de vozes absurdas

na travessia cantei pontos de Jongo

Folias de Reis Festas Juninas

Folguedos de São João

despachos de Macumba

para me defender do capataz


pulei  fogueira em brasa

comi o milho assado

nos tempos  do nunca mais 

nunca vivi porto seguro

na minha praia não tem cais

escrevo como falo aprendi com os ancestrais


V    

com uma câmera nas mãos   

um poema na cabeça

vamos filmar o poema

antes que desapareça 



Projeto Arte Cultura

quinta-feira, 17 de março de 2022

carne viva língua nua

 





 Esfinge

o amor 
não é apenas um nome 
que anda por sobre a pele 
um dia falo letra por letra 
no outro calo fome por fome 
é que a pele do teu nome 
consome a flor da minha pele 

cravado espinho na chaga 

como marca cicatriz 
eu sou ator ela esfinge: 
Clarice/Beatriz: 

assim vivemos cantando 
fingindo que somos decentes 
para esconder o sagrado 
em nossos profanos segredos 
se um dia falta coragem 
a noite sobra do medo 

é que na sombra da tatuagem 
sinal enfim permanente 
ficou pregando uma peça 
em nosso passado presente 

o nome tem seus mistérios que 
se escondem sob panos 
o sol é claro quando não chove 
o sal é bom quando de leve 
para adoçar desenganos 
na língua na boca na neve 

o mar que vai e vem não tem volta 
o amor é a coisa mais torta 
que mora lá dentro de mim 
teu céu da boca é a porta 
onde o poema não tem fim 

 

Artur Gomes

do livro Juras Secretas

Editora Penalux 2018

www.secretasjuras.blogspot.com

 

Musicado pelo músico carioca Rodrigo Bittencourt e gravado pela cantora gaúcha  Dani Rauen

CD Qualquer Lá – 2011

clic no link para ouvir

https://www.youtube.com/watch?v=NyTPLxy4QAo




 carne viva língua nua

 

carne viva língua nua

branca crua alva como lua

canevale

   carnavalha

        carnaval

corpo a(teu)

vendaval que zeus nos deu

 

“é preciso estar atento e forte

não temos tempo de temer a morte”

 

também não sou cristão

como esses que se dizem

donos dos bons costumes

desse gigante adormecido

 

morto-vivo mesmo antes de parido

 

carolinas tive tantas

 por estas tortuosas ruas

 

mas nenhuma delas

com a língua tão viva como a tua

 

Federico Baudelaire

www.coletivomacunaimadecultura.blogspot.com




 Preparativos


 

Daqui alguns dias haverá o carnaval

Preparei minha máscara

senti o corpo

o gosto dos gozos que só me chegam por ele!

Os gozos que só moram na alma

quando atravessam os canais da carne

a tessitura do espírito

na fibra de cada pedaço bruto de matéria.

Que bom, aproxima-se o carnaval!

 

Carne


 
Aglomerado de espaço no tempo breve.

 

Quarta-feira qualquer


 

Quando terminar o carnaval

Eu que não sou cristã

Seguirei em meu caminho

Aceitando cada manhã, sem culpa

porque não sou cristã

portanto, tenho pouco de que me arrepender

acabo escolhendo o que faço!

Seguirei sem carnificina

Eu que não sou cristã

e não creio na imitação do sacrifício

nem mesmo no sacrifício de bichos

quem dirá de pessoas?!

A quarta de cinzas é dia de soprar e colorir

A sexta da paixão é dia de se apaixonar

Sem novidades quanto ao não matar ou comer animais,

pra mim, que não sou cristã.

 

Carolina Rieger




 gigante adormecido

 

a burguesia os industriais da fiesp a grande imprensa corporativa o conglomerado capitalista do gigante adormecido não suporta o Partido dos Trabalhadores muito menos um ex-metalúgico presitente ou uma ex-guerriheira presidenta a vontade  deles é  que todos nós sejamos metralhados como deseja o genopresidentecida. e enquanto isso o país asfixiado estrangulado e o banditismo  oficial mata em nome de deus dos bons costumes do agronegócio da tradição família e propriedade. até quando¿

 

Artur Gomes

www.fulinaimargem.blogspot.com

#quemmandoumatarmarielle?






Fulinaíma Tupiniquim

www.arturfulinaima.blogspot.com

quarta-feira, 16 de março de 2022

língua nova

  



 língua nova

para Luis Turiba e Marisa Vieira

 

a nova língua

língua nova

escorre por céus de boca

saliva nativa

e ninguém com(prova)

 

minha pele roça tua pele

flor de manga me sangra

folhas moras pelo chão

 

pedra que ronca

mal secreto

meu poema linha curva

nunca reto

 

me desculpe fernando pessoa

sou argamassa do concreto

 

me segura criatura

que vou ter um troço

quando li wally salomão

juro que também posso

 

Artur Fulinaima

SubVersão Poética 

www.arturkabrunco.blogspot.com




Hoje estava lendo Magma o belo livro de poemas de Olga Savary e me lembrei de um poema que escrevi ainda menina quando morava em Guarapari.

 

Mar

 

de onde vens

e para onde vais

se as ondas

não param de ir

e vir

muitas vezes me trazem

coisas misteriosas

conchas que não sei

o que tem dentro

noutras apenas joga sal

em minhas coxas

e lambe entre minhas pernas

o que ainda não decifro

não sei o que Clarice

iria pensar se lesse isso

mas Jaguar  tenho certeza

vai s sentir o macho

que Olga costuma apelidar de Mar

 

Rúbia Querubim

www.suorecio.blogspot.com


antigamente escrevia com lápis depois caneta logo depois máquina de datilografia aí veio o ginásio indústria e comecei a escrever na linotipo na oficina de tipografia meus primeiros poemas foram publicados tipograficamente impressos na própria oficina onde aprendi a ser linotipista coisa que essa nova geração já perdeu de vista

 

Artur Gomes Fulinaíma

www.personasarturianas.blogspot.com



A CarNAvalha em

são luis do paraitinga

 

certa vez foi ao carnaval

de são luis do paraitinga

queria conhecer o povo caiçara

ver os folguedos de artifícios

no jogo do baralho

do batman com o coringa

mas o dilúvio nos aterrou na estrada

só chegamos em profunda madrugada

nem ás de copas

muito menos ás espadas

em nossa bagagem só cerveja

era o que restava

no culler da Federika

a mulher mais rica do bordel

da boemia

muito mais até que a Diva

a maior puta do país

o curral das éguas da planície

montanhosa em são luis

na madrugada iluminada

 

e como se diz lá nas quebradas

 

agora não se fala mais

agora não se fala nada

 

Federico Baudelaire

Subversão PoÉtica

www.personasarturianas.blogspot.com



 canção de um realejo solitário

para Artur Fulinaíma

 

“ainda tenho o teu perfume

pela casa

ainda tem você na sala

porque meu o coração dispara

quando sinto teu cheiro

dentro de um  livro

dentro da noite veloz”

 

meu coração dispara

quando abro a porta

e não te vejo

na vertigem do dia

canção de um realejo solitário

quando não te beijo

eu imenso mar sozinha

como um peixe afogado em águas

de delírio e sal

Rúbia Querubim

Obs.: versos entre aspas Adriana Calcanhoto que me acompanhou ontem a noite inteira em minha solidão

www.personasarturianas.blogspot.com



descaminhos

para Rúbia Querubim

 

quando te procuro

e  não encontro

ando tanto tanto tanto

chego a gastar os tutanos

nos descaminhos

desse enredo

 

mas por enquanto

vou te amar assim

em segredo

 

Artur Fulinaíma

www.personasarturianas.blogspot.com

terça-feira, 8 de março de 2022

viagem

 


viagem

 

a navelouca

atravessou o pontal em atafona

com destino a barra

à procura de Godot

passou por gargaú santa clara

entrou no ariticum macuco

traçou um risco

no centro urbano são francisco

voltou ao mar

sonho sossego guaxindiba

manguinhos buena almontado

tatagiba guriri lagoa doce

chegou a barra

e não encontrou o personagem procurado

rompeu a quarta parede do espírito santo

e até agora não voltou

 

Federico Baudelaire

www.poeticasarturianas.blogspot.com

quarta-feira, 2 de março de 2022

Fulinaimicamente - TransPoÉticas

 


Fulinaímicamente 

        TransPoÉticas

porque hoje é quarta e nem quis

saber de carnaval aqui nessa batalha

sem confete lança perfume serpentina

vendo os olhos da menina aflitos

por socorro no outro lado da esquina

 

Coletânea Poetas Vivos 

– alô poetas e poetas .Envie de 5 a 10 poemas de sua autoria pelo e-mail fulinaima@gmail.com uma foto e minibio aos cuidados da equipe de seleção da Fulinaíma MultiProjetos e venha conosco nessa viagem bordelírica fulinaimicamente TransPoÉtica.


 do som dessa palavra

nasce uma outra palavra

fulinaimicamente

no improviso do repente

nasce uma outra palavra

fulinaimicamente 


 Abraços e beijos

Artur Gomes

www.fulinaimagens.blogspot.com



 

Fulinaimicamente – TransPoÉticas

www.fulinaimicamente.blogspot.com

Artur Gomes - Pátria A(r)mada - Desconcertos - 2022

Artur Gomes   Pátria A(r)mada   Prêmio Oswald de Andrade UBE-Rio – 2020   2ª Edição Revisada e Ampliada   TRÊS TOQUES PARA PEN...